A PAISAGEM DO MUNICÍPIO COMO TERRITÓRIO EDUCATIVO

A PAISAGEM DO MUNICÍPIO COMO TERRITÓRIO EDUCATIVO
Euler Sandeville Jr.

Já agora ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo (FREIRE, 2005:79)

O município é uma construção político-administrativa e histórica, mas também é lugar, espaço vivido, percebido e conhecido. Nesse sentido, reúne eixos importantes para pensar projetos educativos. Como unidade territorial e de gestão possibilita recursos institucionais e de políticas públicas, e complexas interações com organizações civis. Como espaço socialmente produzido1, sobretudo a partir do lugar, permite atuar pedagogicamente na profunda relação que existe entre espaço vivido e educação. O município viabiliza estratégias e programas de gestão, e sugere adotar o espaço experienciado como inspirador de projetos educativos locais e sua articulação com outros locais enquanto entendimento de mundo.

Dizia Heidegger (2008) que habitar é o modo como os mortais são na terra. O plural – os mortais – sugere que habitar implica conviver. No entanto, geralmente pensamos a habitação não como uma condição do ser entre e com outros, mas como uma coisa singular, desistoricizada, esvaziada de sua produção como espaço social. Ao contrário, habitar é fazer parte de uma história que nos antecede e nos ultrapassa. O ato de habitar, essencial e solidário para os viventes, é o depositário de todos os nossos saberes, das contradições que engendramos em sua construção, apropriação e transformação. Penso que o fruto material e imaterial do nosso fazer, do nosso trabalho, é um registro contundente de nosso aprendizado. É também o modo como nos representamos. Habitar é portanto habitar valores, representar o mundo, escolher, aprender, ser, conhecer, partilhar, amar. Propriedades que também queremos ver na educação como formação criativa.

Entretanto, o modo como habitamos tem sido problemático. Podemos reconhecê-lo como uma partilha tensa e contraditória do nosso saber-fazer em um espaço comum, ao nos apropriarmos dele de modo desigual e violento. Nosso habitar tanto tem sido indiferente ao outro, desrespeitoso, brutal, desleal, quanto tem sido afetivo, solidário, criativo, celebrativo. No fluxo cotidiano, não nos damos conta de que estabelecemos entre nós uma partilha conflitiva e contraditória ao realizar nossas ambições e sonhos.

As contradições, entretanto, podem se tornar um estímulo para aprender com a nossa incompletude como dizia Paulo Freire (1996:50), e ao fazê-lo de modo ativo, constituímos a linguagem continuamente, aprendemos e aprendemos que podemos transformar. Se habitar é o modo de ser dos homens no mundo, nossas obras, em contínua transformação pelo trabalho, acabam sendo como uma linguagem social materializada desse estar historicamente no mundo. Essa linguagem não verbal construída no espaço conta-nos sobre os nossos valores comuns, ensina-nos sobre a apropriação que fazemos delas, explicitando o sentido dos nossos atos.

Habitar é existir, e portanto também aprender a existir, em uma paisagem em trânsito contínuo. O espaço habitado, urbano ou rural, nos abriga e, na nossa imaginação, memória, experiência, criamos fluxos da subjetividade com o estar com outros, constituindo então paisagens conhecidas. Que tipo de educação sustenta essas paisagens, que educação necessitam para sua qualificação, o que ensinam sobre nós mesmos e nossas práticas as paisagens e os projetos de educação?

A paisagem2 é tanto uma experiência partilhada como é uma construção social, tensa e contraditória, vivenciada em um presente, herdada de longos processos naturais e do trabalho humano. A paisagem é sempre uma herança diz Aziz Ab’Saber (2003:9). Mas não é uma herança passiva, conclusiva. Por ser tanto experiência quanto herança, história, tempo, a paisagem, a cidade, o espaço rural, o habitar são decisões. Decisões que vão expondo e ocultando no espaço as lutas pelo poder e pela civilidade. Assim, a paisagem abriga narrativas veladas das decisões que nos precederam, construindo nossas possibilidades de estar aqui por meio de conflitos, desejos, racionalidades, demarcando inúmeros contornos sutis da transformação que o nosso estar aqui engendra. É a expressão material, simbólica e sensível do nosso modo de habitar o mundo. É ativa, ao oferecer ou negar possibilidades. Está sempre prenhe de novas formas e possibilidades. Fecundidades que ainda não se vêm, que ainda não se definem mas que, em potência, já estão se movendo ante nossos olhos distraídos.

O futuro se realiza na decisão, na inclusão, na seleção e na exclusão do possível. E com base em que selecionamos esse futuro? Este lugar que vivemos não nos pertence, é de uma amplitude espaço-temporal fabulosa. Com base em que decidimos seu destino? Com qual finalidade? Como decidimos que as paisagens devem ser essas e não outras também possíveis? Como decidimos que isto e não aquilo está em gestação no nosso partilhar o mundo, prestes a se tornar nosso legado, muitas vezes involuntário, para um amanhã que, mais cedo ou mais tarde, nos escapa?

Dizer que a escola, a família, os amigos, as mídias, os brinquedos, os divertimentos e as obrigações nos ensinam já é há muito sabido. Mas é preciso atentar também que o espaço, como processo e produto do trabalho e do desejo humano na transformação da natureza, também nos ensina. A espacialidade, a temporalidade e as formas de convivência são educadoras no sentido lato da palavra. Porém, nem sempre o são no mesmo sentido que desejamos que tenha a ação educativa em nossas práticas.

A paisagem de um município, uma região, ou do entorno de vizinhança, seja ela urbana, periférica em área de expansão, considerada de valor histórico, rural ou natural, é um espaço educativo por excelência. Thoureau, no século 19, criou uma escola que suprimia a punição física e tinha na vivência da paisagem, no espaço externo, um tema privilegiado da formação de seus alunos. Na época, foi visto com estranheza e hostilidade, e ficou insustentável! Os anarquistas adotavam em suas escolas populares o “estudo do meio” como uma estratégia à formação libertária de um cidadão autônomo e independente. A paisagem, o território, são locais privilegiados do aprendizado, revelando e ocultando as formas de ser e os valores que os suportam efetivamente.

Trata-se de pensar a educação em processo, em vivência, em experiência, aberta ao mundo. A questão é se a educação, tal como é praticada, é mesmo a que queremos e precisamos. O que ensinaria sobre nós, a um viajante distante de nossa cultura, percorrer quilômetros de periferias, desigualdades, preconceitos tornados comuns, quando não alardeados como uma espécie de valor sem valor ou ética, sem solidariedade? O que lhe diria sobre o projeto humano contemporâneo a educação que é oferecida às crianças que as habitam?

Em relação à uma experiência espacial que reconheça sua dimensão educativa, estamos deseducados para a paisagem, que por sua vez não está desenhada para ser um espaço educativo dos valores que defendemos em nossas salas de aula, igrejas, associações, nem na nossa produção de conhecimento e informação. Tamanha distância é surpreendente, mas não iludirá futuras gerações sobre a natureza brutal e brutalizante do projeto social e humano que tem imperado em nossa época, malgrado tantos esforços para conduzi-lo noutra direção e as conquistas sociais já alcançadas nesses embates.

Percebe-se que o destino das paisagens, como locais de experiência e de aprendizagem, e o das escolas como locais de formação para essa experiência e aprendizagem contínuas, estão relacionadas. O fracasso de uma repercute no fracasso da outra, assim como a melhoria de uma promove a melhoria da outra. Indo além, a paisagem oferece à escola muitos territórios educativos a serem em comum percebidos, construídos e transformados de acordo com princípios humanísticos. Não haveria aí um excelente programa de convergência dos nossos saberes disciplinares e existenciais, propondo o desafio de desenhar em ação um saber de qualidade sócio-ambiental-cultural? Como construir esse processo? Que oportunidades temos diante de nós?

Entendo3 que compreender o espaço socialmente produzido como lugar de experiências, significações, intersubjetividades e contradições, torna-o um tema privilegiado no processo de aprendizagem, reflexão, ação criativa e da educação como construção da liberdade, do afeto e da alegria4. Estudar as paisagens é estabelecer uma discussão da cultura, de implicações políticas, ou não percebê-las. Discuti-las é discutir como nos vimos, como nos vemos, como gostaríamos de ser vistos. É reconhecer, antecipadamente, como seremos vistos como sociedade. Nesse sentido, por vezes a paisagem incomoda (e muito), pois evidencia nossas práticas para além dos discursos que a camuflam, mas também aponta para um desejo e capacidade possível de mudança.

O Programa Município que Educa contribuirá nessa direção. Propõe aos municípios o reconhecimento e a valorização das diferentes culturas e realidades sociais, considerando o centro, a periferia e os setores rurais; a potencialização da intencionalidade educativa das iniciativas dos diversos sujeitos sociais; a incorporação de um planejamento participativo às ações locais; a articulação entre as diversas áreas e setores envolvidos nesse processo; a potencialização dos espaços da municipalidade como espaços educadores; o estabelecimento de inter-relações entre as ações locais, a região, o país e o mundo; e a criação de redes sociais que possibilitem o intercâmbio e a colaboração, visando o exercício da participação cidadã5. Não podemos abrir mão de nenhum esforço nessa direção.

BIBLIOGRAFIA

AB’SABER, Aziz. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê, 2003.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

LEFEBVRE, Henry. The Production of Space. Trad. D. Nicholson-Smith. UK: Blackwell Pb., 1991.

HEIDEGGER, Martin. Construir, habitar, pensar. Disponível em http://www.heideggeriana.com.ar/textos/construir_habitar_pensar.htm Acesso em 2008.

PADILHA, Paulo Roberto. Município que educa. Nova arquitetura da gestão pública. São Paulo: Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, 2009.

SANDEVILLE JR., Euler. Paisagem. São Paulo: Paisagem e Ambiente n. 20, 2005, pg. 47-59.

SANDEVILLE JR., Euler. Paisagens vivenciadas, educação-pesquisa-aprendizado em ação. Porto Alegre: Anais do X ENEPEA, 2010.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. São Paulo: EDUSP, 2006.

NOTAS______________________

1 LEFEBVRE, 1991; SANTOS, 2006

2 Para a abordagem de paisagem que adoto e seus desdobramentos em programas de educação-pesquisa-aprendizado em ação ver SANDEVILLE JR., 2005 e 2010; disponíveis em http://espiral.net.br, seção biblioteca.

3 Algumas das experiências didáticas e de pesquisa decorrentes desse entendimento podem ser seguidas no portal http://espiral.net.br (Grupo de Pesquisa Paisagem, Cultura e Participação Social).

4 Apresento os princípios de trabalho que adoto em O sentido da espiral indaga a alma no espaço virtualmente coletivo (Memorial Espiral 2003) e Manifesto Espiral, disponíveis em http://espiral.net.br, página de abertura.

5 Ver PADILHA 2009 e http://municipioqueeduca.org.

Autor: euler

Euler Sandeville Jr.

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