breve advertência sobre os períodos que organizam a navegação neste sítio e suas datações de referência

BREVE ADVERTÊNCIA SOBRE OS PERÍODOS QUE ORGANIZAM A NAVEGAÇÃO NESTE SÍTIO E SUAS DATAÇÕES DE REFERÊNCIA
Euler Sandeville Jr.
versão inicial 18/03/2016. Última atualização: 06/03/2017. Revisão importante em 25/02/2018

 

Ninguém no seu juízo pensaria que uma data, por mais relevante que seja na vida das pessoas ou das nações, por si mesma, demarcasse como uma linha de fronteira processos distintos da história. Da mesma forma as periodizações. No entanto, devemos reconhecer, são um recurso poderoso para criar significação no tempo. Por sua longa e continuada repetição passamos a organizar o conhecimento a partir de períodos que tendem assim a nos parecer naturais – renascimento, modernidade, etc. Mas não são, a história não foi assim, este é o modo como organizamos suas narrativas e nossa compreensão.

Por vezes, esses períodos, repetidos desde cedo em nosso aprendizado do mundo e do tempo, acabam nos parecendo naturais, verdades. Ganham autonomia sobre aquilo a que se referem: nos dizem não só o que deve ser olhado e lembrado, e o que não deve ser olhado ou deve ser esquecido, mas também o como devem ser olhados esses objetos de lembrança, ou de esquecimento. Toda periodização é relativa ao que se pretende. As fronteiras no conhecimento permanecem campos em disputa, são espaços de transição, cuja amplitude depende da temática e do foco com que se observa, e da duração em que se observa.

Além disso, os espaços e tempos de sobreposição, de transposição, de permanência e inovação, são mais importantes do que os limites. Ainda assim, tendem a remeter, de algum modo, a períodos, mesmo que particularizados nos objetos estudados. Não deixam de evidenciar, desse modo, as contradições dos grandes períodos. São todos estes artifícios, quase artefatos, de construção da consciência moderna sobre o passado e o presente.

Observemos ainda um outro aspecto. Houve muitas outras formas de periodizar. As periodizações que nos são caras são muito distintas de outras formas de periodização, por exemplo, da “Antiguidade”. Aquelas tendem ao imanente, indicam fluxos ou dispensações, são cósmicas; as nossas, modernas, são basicamente sociais (quando não materiais), sejam evolucionistas, dialéticas, pós-modernas. É necessário não esquecer que o tempo, como o acontecimento, não é naturalmente partido, é uma tendência humana fazê-lo para nos situarmos de modo significativo em nossas lembranças, nossa história pessoal e social.

Considere-se ainda um duplo desafio. Por um lado, a contextualização histórica de documentos, objetos, processos, eventos. Por outro lado, a reinvenção contínua de significados e de seleções (escolhas) que os tornam significativos para nós. A contextualização adequada de um documento é condição para que se evitem os chamados anacronismos, ou seja, ler com os olhos de hoje os significados de ontem. Mas é também a reinvenção do documento, ou seja, explicita a própria contradição do saber histórico.

Além disso, o documento não se esgota na adequada contextualização histórica de sua produção, pois pode ter continuado abrindo frentes de significação para além de seu tempo de constituição, que também precisam ser pesadas e permitem múltiplas abordagens distintas. A mera decisão de vê-lo como documento disso ou daquilo, o torna suporte de convicções e abre narrativas, aderentes ou não a esse sentido, que é assim, sempre, construção.

A organização adotada no sítio – aurora, modernidade etc – visa possibilitar a navegação por um material que ainda está sendo produzido. A datação e denominação dessas seções varia conforme amadurece o conteúdo de pesquisa e a intencionalidade narrativa. Era necessário tentar criar uma estrutura inicial baseada nessas seções, de modo a tornar possível a navegação por uma grande quantidade de informações que se irá acumulando.

Trata-se, portanto, apenas de um artifício de organização, que dialoga de modo crítico com as divisões tradicionais da história, tão arraigadas em nossa forma de ver o mundo. Contudo, não se vê qualquer perspectiva explicativa nelas. A Antiguidade Clássica, que de fato, como a Renascença, não existe, não é uma explicação para nada, não é uma totalidade válida, mas não que dizer que não tenha significados. Já que não se pretende a especialização do campo, não é na grande categoria (Antiguidade, Idade Média, etc.) que se espera encontrar o significado dos eventos. Em outro sentido, já que não se pretende a especialização do saber, não é no desbravar sistemático dos documentos e artefatos que está a contribuição deste sítio. Apenas aceitei de modo ativo o convite que a difusão, inclusive pedagógica desses saberes, nos faz.

A abordagem de A Natureza e o Tempo é a um tempo mais arriscada e mais segura do que a do especialista em uma série documental, por ampla ou localizada que seja, de quem me coloco totalmente devedor. A consciência dos limites próprios do ensaio, e de todo o conhecimento humano, é o que se encarrega de jogar-me na lona. Mas nem por isso posso evitar a responsabilidade de problematizar os conteúdos da consciência da contemporaneidade e de sua memória social, constantemente posta em discussão e afirmação autoritativa.

Ao não ser do metier do especialista, este trabalho tem a limitação das fontes secundárias e das traduções das fontes. Por outro lado, tem a liberdade de indagar a transversalidade dos eventos e formulações intelectuais, sem também cair em um particularismo em si mesmo, de modo a permitir estabelecer ensaios críticos, demarcando aprofundamentos e entrelaçamentos distintos entre o material visitado.

Dadas as restrições que fiz, sobretudo às divisões da história em períodos, e tendo julgado conveniente adotar  uma distribuição dos conteúdos em seções que evidentemente questionam, mas dialogam com essas divisões da história, vale uma observação, para deixar mais clara a divisão de seções deste sítio. Elas não têm valor explicativo, e portanto não são delimitativa dos fenômenos. São apenas, insisto, uma forma de organizar o conteúdo no contexto dos diálogos críticos pretendidos.

Por exemplo, a clássica carta de Petrarca, relatando sua escalada do Monte Ventoux (1336), estará acessível no período por ora definido como MUNDUS NOVUS. Aí também estarão o alargamento do mundo com as “grandes navegações” do quatrocentos e do início do quinhentos, e as revoluções na natureza operadas pela Reforma e pela ciência de Copérnico e Galileu.Mas a carta de Petrarca não está situada nesta seção porque seja vista como um prenúncio da modernidade da Renascença, nem como um marco da contemplação da paisagem, como por vezes é entendida, uma vez que de modo algum é vista aqui dessa forma.

Esse período (NOVUS MUNDUS, na verdade, apenas uma seção deste sítio), como qualquer outro, abriga uma grande renovação das ideias sobre a religião e dos contatos interculturais, bem como um novo olhar para a “Antiguidade”. As grandes navegações descortinaram um mundo novo, distinto daquele observado por Petrarca. Porém, as formas culturais, revelam também uma persistência transversal no contexto dessas grandes mudanças, como poderíamos observar analisando documentos tão distintos, mas que poderiam ser estratégicos para esse fim, com a carta de Petrarca a Dionísio do Burgo Santo Sepulcro e a carta de Galileu a D. Benedetto Castelli.

O fato é que, sendo apenas uma organização, e não uma explicação dos conteúdos, esta escolha também poderia ter sido outra. Ao invés de adotar uma seção Mundus Novus, por exemplo, poderíamos ter ficado com a instigante Longa Idade Média de Le Goff, que a essas alturas me parece mais consistente do que a de renascença ou de Era Moderna. Do mesmo modo, recusando as questões entre Antiguidade Oriental e Clássica, que têm suas razões no metier e na origem dessas temáticas, optei por uma Longa Antiguidade dos Mundos, porque em parte não consigo entender essa segmentação, em parte porque não é o foco deste projeto. Pior, essa Longa Antiguidade não vê como uma questão a distinção entre Antiguidade Clássica e Antiguidade Tardia, ou as difíceis fronteiras desta com a Alta Idade Média.

Nem por isso nos furtaremos, pelo sua facilidade comunicativa, a empregar essas configurações para situar determinadas questões. Mas, não estando procurando dotá-las de valor explicativo e não vendo muito interesse na ideia (para mim anacrônica) de modo de produção, e talvez não reconhecendo mesmo o sentido dessas divisões tradicionais da história, as seções deste sítio acabam por seruma forma narrativa poética que perpassa a concepção deste projeto.

Isso mostra que essas seções aqui propostas, se espelham uma visão crítica e expressem questionamentos, são apenas uma referência para organizar a navegação, aproveitando-se da facilidade comunicativa do que já é habitual. É necessário entender que todo passado são mundos que não existem mais, mas nos afetam direta e intensamente. Nosso presente também é um mundo que não existe mais, não só porque nos escapa profundamente, dele retendo elementos selecionados e representações que nos interessam, mas porque está é muito mais amplo do que a experiência permite perceber.

Nesse desejo do tempo, na consciência entre passado, presente e futuro em que escolhemos-definindo o que somos em vias do que fomos-seremos, nem sempre desejamos o presente ou contemplamos com expectativa e confiança o futuro para o qual nos sentimos arrastados em um turbilhão de vontades decorrentes de partilharmos tempos e espaços conectados e contraditórios. Nunca compreenderemos bem o tempo (o mundo), porque nele somos escravos e apaixonados, e nele temos os olhos embaçados com a brevidade.

 

 

como citar material desta página:


SANDEVILLE JR., Euler. “Breve advertência sobre os períodos que organizam a navegação neste sítio e suas datações de referência”. Núcleo de Estudos da Paisagem, on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://nucleodeestudosdapaisagem.wordpress.com/2018/02/18/breve-advertencia-sobre-os-periodos-que-organizam-a-navegacao-neste-sitio-e-suas-datacoes-de-referencia/ acesso em DIA/MÊS/ANO.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


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Imagem destacada na abertura do post: Latim: Schema huius praemissae divisionis sphaerarum. · Coelum empireum habitaculum dei et omnium electorum · 10 Decimum coelum primu mobile · 9 Nonu coelum cristallinum · 8 Octavum [coelum] firmamentu · 7 Coelu saturni · 6 [Coelu] Iovis · 5 [Coelu] Martis · 4 [Coelu] Solis · 3 [Coelu] Veneris · 2 [Coelu] Mercurii · 1 [Coelu] Lunae
Esquema da referido divisão das esferas. · O Empíreo céu (de fogo), habitação de Deus e de toda os eleitos · 10 Décimo Céu, causa primeira · 9 Nono céu, cristalino · 8 Oitavo céu do firmamento · 7 Céu de Saturno · 6 Jupiter · 5 Marte · 4 Sol · 3 Venus · 2 Mercúrio · 1 Lua
Fonte: Peter Apian, Cosmographia, Antuépia, 1524 (fonte mencionada Edward Grant, “Celestial Orbs in the Latin Middle Ages”, Isis, Vol. 78, No. 2. (Jun., 1987), pp. 152-173.) Disponível em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ptolemaicsystem-small.png. Acesso em 30/01/2016.

 

 

Autor: euler

Euler Sandeville Jr.

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