Manifesto Espiral 2003

ESPIRAL DA SENSIBILIDADE E DO CONHECIMENTO
MEMORIAL 2003
Euler Sandeville Jr.

 

o sentido da espiral indaga a alma no espaço virtualmente coletivo

 

Rio Tiburtino, em Mucugê, BA. Que significados nos traz a paisagem refletida na água em um trecho tão sereno do rio, logo antes de algumas quedas? Quais os sentidos da água na paisagem? Quais os sentidos da paisagem para nós? E a pergunta que nos deve ensinar as outras: quais os nossos sentidos na paisagem?

Figura 1. Rio Tiburtino, em Mucugê, BA. Foto Euler Sandeville, jan. 1999.

 

o sentido da espiral indaga a alma no espaço virtualmente coletivo

Uma espiral é um movimento harmônico e imprevisível, tridimensional, que pode expandir em todas as direções, e por isso mesmo não isento de contradições. É uma forma vaga e variada, que inspirou aquela ideia que temos da espiral como um desenvolvimento numa equação matemática e numa proporção áurea. Sua forma, entretanto, não precisa ser de uma geometria perfeita, pois essa ideia de perfeição seria uma abstração. Imaginemos uma espiral que pudesse desdobrar-se em vários pontos e planos, livre da linearidade bidimensional do papel que faz parecer natural tudo ser plano. Imaginemos também que tocasse outras espirais, e a cada ponto surgissem ondas animando os mundos, como se várias pedras fossem atiradas quase simultaneamente na superfície de um lago.

Assim, o desdobramento da espiral, entre uma função matemática e um desenho aleatório, entre o expandir-se ao infinito de suas possibilidades e o convergir a um centro – no limite a um infinito interno que tende a um ponto de geração, põe em contato diversas visões de mundo. Visões de mundo que se agrupam e se dissolvem, como as imagens breves em um espelho d’água convidando o olhar ao repouso e ao movimento, à percepção de um ponto gerador que transborda. Essas imagens são segredos, que nos convidam de um modo ora suave ora intenso, aos lugares que as geraram e aos lugares para onde transbordam.

Figura 2. Representação gráfica da proposição da Espiral da Sensibilidade e do Conhecimento, criação em montagem Euler Sandeville Jr., 2002.

 

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O foco desta proposta é a discussão da sensibilidade e da cultura contemporânea, constituindo um espaço de manifestação de colaboradores que se afinam com a proposta. A partir dessas manifestações, a espiral pode se desdobrar em outras que se conectam em pontos diversos formando uma teia complexa de espaços físicos e conexões virtuais.

A espiral da sensibilidade pode ocorrer tanto na paisagem, como intervenção no espaço, conectando em diversos lugares independente de qualquer geometria, quanto no ambiente virtual possibilitado pela tecnologia contemporânea, ambas realidades perante as quais se pretende crítica. Imagino as duas coisas integradas, dando a cada ponto do espaço uma possibilidade de integração simultânea com outros, através da construção de lugares e objetos, de ações sem permanência, de interação entre usuários em rede. São múltiplas espirais, tridimensionais.

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Três eixos tornam-se fundamentais no espírito que fundamenta essa ação: criatividade (sensibilização), investigação (construção) e participação (integração solidária). Coisas que podem acontecer de modos muito diversos, considerando os ambientes virtuais e espaciais em que podem ocorrer. Porém, não escondo a preocupação de que o ambiente virtual deveria ser instrumento de apoio para a construção de um ambiente material e interpessoal. Ambos criam um ambiente cultural, mas o que se defende é o enriquecimento e ampliação do contato humano. Por isso, a rede é apenas um instrumento, capaz de dotar ações de simultaneidade, de expressar contradições, de colocar em contato experiências díspares e fazê-las uma contribuição comum. As pessoas conectadas não experimentam necessariamente esse crescimento pessoal entre si, partilham o desejo de aprofundá-lo, mas isso pode ocorrer em contextos espaciais e entre pessoas desconectadas da rede virtual. O que interessa é que ocorra num espaço e entre pessoas. Constitui uma procura de alternativas, associadas a estratégias lúdicas, a discussões da cultura e dos valores sociais etc.

 

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Com relação a sua expressão espacial consideramos inicialmente:

Imaginamos que os espaços, objetos e ações criados sejam concebidos e realizados a partir de oficinas de criatividade coletiva. Chamamos (preliminarmente) aos espaços de jardins temáticos e as ações de vivências. O ganho estará se for possível suplantar a etapa de concepção e execução para uma de gestão, que imaginamos também criação coletiva. Em suma, num primeiro momento seria viabilizar pequenos espaços criativos voltados para funções de lazer, educativos e inclusão social, não apenas por sua forma, mas por seu modo de ser concebido e executado e, noutro sentido, por ações ou eventos criativos e críticos que evidenciassem a proposta e estabelecessem um debate sensível das condições culturais vigentes.

Criatividade

Não temos dúvida de que a simples criação pode demonstrar um descompromisso, um forte desejo de autoria, um centramento em objetos mais do que relações, de modo que a gestão, igualmente um processo criativo, já implica em alguma permanência de afetividade, algum compromisso com o entorno e com os outros. A criação por si nos deixa presos no conceito tradicional de arte, que nos parece desvinculado, ensimesmado e arbitrário, entre outras coisas. A gestão implicaria numa sensibilidade coletiva. As oficinas de criatividade envolveriam as etapas de concepção, execução, manutenção e transformação dos jardins e vivências.

Acessibilidade e Inclusão Social

Outra questão central na proposta é a da acessibilidade universal, entendida não só como superação de barreiras físicas (design universal), mas como aceitação da diversidade de usuários também social, cultural, emocional. A convivência com as diferenças que existem entre nós é a base para uma relação mais respeitosa, mais humana, mais solidária. Mas temos sido socialmente desrespeitosos entre nós, dilapidando por razões étnicas, físicas, econômicas etc. um rico potencial humano a que chamamos vagamente de povo brasileiro, vendo sucumbir numa sombra escura de injustiça e desigualdade nossa humanidade.

Educação básica

Outro ponto importante é a experimentação. Em especial em programas voltados para os níveis fundamentais de ensino e para grupos de usuários com necessidades especiais. O objetivo é deixar uma contribuição mais efetiva para a comunidade e servir isto também para um processo continuado de aprimoramento do projeto. De onde segue que o projeto da Espiral não pode ser fechado, mas estabelece um ciclo de criatividade e investigação com participação dos usuários. Aqui também, por educação básica não entendemos apenas as crianças em idade escolar, mas o conjunto em que se inserem e o aperfeiçoamento dos educadores e agentes sociais que a elas se dedicam. A utilização da Espiral como um espaço público coletivo seria um ponto de partida para a discussão e sensibilização ao meio ambiente construído, tanto em seus aspectos de natureza e sua dinâmica (água, luz, temperatura, terra, vegetação, sucessão ecológica etc.), quanto para as edificações e sobretudo como a vivência, ou seja, desenvolvimento da criatividade e expressão, entendimento e comprometimento com os processos ambientais e sociais.

Memória – Jardim do tempo [1]

Figura 3. Conceito do Jardim da Espiral, 2002. Desenho Euler Sandeville Jr., 2002.

Solidariedade

Pretende-se que cada desenvolvimento se dê efetivamente ancorado em um trabalho coletivo e cooperativo de criação. Desta forma, o programa, sua inserção na paisagem, suas articulações com outros projetos temáticos previstos na Espiral ficam em aberto, a serem definidas pela equipe que se interessar em participar desta proposta, dentro dos objetivos e princípios aqui apresentados. De modo que não se pensa em tipos, mas cada ação é única, enraizada em um contexto específico que particulariza a ideia e sua expressão, que a enriquece e a torna potencialmente mais apropriada a cada situação coletiva e paisagem em que ocorre.

Reciclagem

Com relação à execução sugere-se inicialmente duas formas para sua execução: a partir de oficinas reciclando materiais e a partir de financiamentos, seja por parceria com empresas ou por verba obtida em instituição de fomento. O importante é ressaltar que a etapa de execução não seja vista como meramente operativa, desvinculada dos processos de criação. A execução é em si uma etapa de criação e pode se dar em alguma medida simultânea ao processo de projeto. Deve-se prever na medida do possível, em consonância com a proposta, soluções tecnológicas alternativas para energia, fluxo de água etc., que dependem em grande medida que aquele programa tenha sido incorporado e avançado nessas direções. Neste sentido a execução de pilotos ou protótipos experimentais contribuiriam para estabelecer um conjunto de contatos e intercâmbios.

 

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Com relação a sua expressão virtual consideramos inicialmente:

Esse ambiente se pauta pela investigação da construção de uma mensagem ancorada em uma reflexão mais ampla, sob a forma de um debate da cultura que expresse um compromisso sério com a discussão de nosso tempo e com a divulgação de uma arte que tenha sua raiz no prazer, na sensibilidade e na convicção, não no mercado (a ideia é romântica, talvez).

A Espiral existirá (pretende-se que venha a existir) enquanto houver afinidade nesse desejo de construir essa mensagem, fundado em uma postura de pensamento que, respeitando a diversidade de cada um, procura formular uma proposta crítica e criativa para o atual estado de coisas.

Trata-se de um ambiente para manifestar convicções, dentro de um compromisso ético. Basicamente, trata-se de ter algo a dizer, a partilhar, a se posicionar. Procuramos os fluxos do coração.

A preocupação com uma reflexão ao mesmo tempo aberta a posicionamentos motivados por esse ponto criativo e crítico a ser encontrado, não gera um discurso unificado, de modo que cada colaborador é inteiramente responsável por suas manifestações, que não representam uma opinião necessariamente partilhada pelos demais. O que é partilhado é o conceito que nos unifica na exploração deste ambiente, das visões de mundo assim mobilizadas.

 

o sentido da espiral indaga a alma no espaço virtualmente coletivo

 

este projeto deseja propor

o desejo de amar
a alegria
o entendimento
a fraternidade
a paz
o respeito
a participação
a valorização humana
a integridade
a justiça
a compreensão
o desejo de crescer junto
o respeito à diversidade
a generosidade
a simplicidade

este projeto deseja se opor

à violência
à padronização
ao preconceito
ao racismo
à guerra
à indignidade
à exploração do trabalho
à miséria
à corrupção
à injustiça
à maldade
à ambição
à exclusão
ao ensimesmamento
à camuflagem

 

 

 

Notas
_________________

1 A Espiral previa nos projetos iniciais três modalidades de instalações (jardins): Bosques Temáticos, Jardim do Tempo, Espaços Lúdicos e tinha especial preocupação com o envolvimento no processo criativo de todas as suas etapas, em módulos integrados ou distintos, de jovens do entorno e de portadores de deficiências físicas e mentais, como forma de ampliação da sensibilidade e da partilha, do compromisso comum e do alargamento dos horizontes sensíveis na poética do fazer lugares e de processos integrando as pessoas em formas coletivas de criação, construção e gestão.

Figura 4. Representação gráfica da proposição da Espiral da Sensibilidade e do Conhecimento, criação em montagem Euler Sandeville Jr., 2002.

 

como citar material desta página:


SANDEVILLE JR., Euler. “Espiral da Sensibilidade e do Conhecimento. Memorial 2003”. Núcleo de Estudos da Paisagem, on line, São Paulo, 2003. Disponível em https://nucleodeestudosdapaisagem.wordpress.com/2017/12/17/139/ com acesso em DIA/MÊS/ANO.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


núcleo de estudos da paisagem
a natureza e o tempo (o mundo)
uma proposta de euler sandeville

 

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REFERÊNCIAS DO POST

Figura:

Figura 1. Rio Tiburtino, em Mucugê, BA. Foto Euler Sandeville, jan. 1999.

Figura 2. Representação gráfica da proposição da Espiral da Sensibilidade e do Conhecimento, criação em montagem Euler Sandeville Jr., 2002.

Figura 3. Conceito do Jardim da Espiral, 2002. Desenho Euler Sandeville Jr., 2002.

Figura 4. Representação gráfica da proposição da Espiral da Sensibilidade e do Conhecimento, criação em montagem Euler Sandeville Jr., 2002.

Título: Espiral da Sensibilidade e do Conhecimento. Memorial 2003.
TitleSpiral of Sensitivity and Knowledge. Memorial 2003.

Autor/Author: Euler Sandeville Jr.
Web designer: Euler Sandeville Júnior

Palavra-chave: Sensibilidade, Conhecimento,Criatividade, Pesquisa, Participação, Expressão, Construção, Solidariedade
Keyword: Sensitivity, Knowledge, Creativity, Research, Participation, Expression, Construction, Solidarity

Resumo: A Espiral da Sensibilidade e do Conhecimento é um projeto poético, não-disciplinar, elaborado a partir de 2002. O conhecimento e o aprendizado são entendidos como uma construção partilhada de saberes e práticas. O projeto decorre de um longo caminhar em aprendizagem, permitindo propor o conhecimento como tendo uma potencialidade poética a par de cognitiva, e perceber a vida como ação estética e afetiva, compromisso social e aprendizado existencial com o outro. Estética. Ética. Linguagem. Este memorial apresenta a proposta da Espiral da Sensibilidade e do Conhecimento em sua conceituação de 2003.

Abstract: The Spiral of Sensibility and Knowledge is a poetic, non-disciplinary project, developed from 2002. Knowledge and learning are understood as a shared construction of knowledge and practices. The project stems from a long walk in learning, allowing to propose knowledge as having a poetic potential as well as cognitive, and to perceive life as aesthetic and affective action, social commitment and existential learning with the other. Aesthetics. Ethic. Language. This memorial presents the proposal of the Spiral of Sensibility and Knowledge in its conceptualization of 2003.

 

 

 

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